Traducidos por A. P. Alencart
GRAÇA
Nem palavras aparelhadas
nem olhares suplicantes
nem suspiros apaixonados
nem sacrifícios pesados
ofertas religiosas
renúncias
esgares
mãos postas
sobrepostas
contritas
a bater de encontro ao peito
nada em mim pode competir
com a Graça. Essa Himalaia de favor
imerecido
esse veludo admirável
comovido
essa expressão calorosamente
cúmplice
no rosto inefável do Eterno.

GRACIA
Ni palabras estilizadas
ni miradas suplicantes
ni suspiros apasionados
ni duros sacrificios
ofrendas religiosas
renuncias
gesticulaciones
manos juntas
superpuestas
arrepentidas
golpeando el pecho
nada en mí puede competir
con la Gracia. Ese Himalaya de favor
inmerecido
ese terciopelo admirable
conmovedor
esa expresión calurosamente
cómplice
en el rostro inefable del Eterno.

ELEGIA PARA UM CRISTO MORTO
Ele não tinha parecer nem formosura
e as pessoas desviavam os olhos
da sua dor
preferiam ficar ao longe
como quem contempla a desgraça alheia
e com margem de fuga. Viram-no acabar
impressionados com o luto súbito do céu
sem suspeitar que daí a três dias
havia de rebentar
uma primavera única.
ELEGÍA PARA UN CRISTO MUERTO
Él no tenía buen aspecto ni hermosura
y la gente desviaba los ojos
de su dolor
preferían quedar a lo lejos
como quien contempla la desgracia ajena
y próximos a huír . No vieron el final
impresionados con el luto súbito del cielo
sin sospechar que tres días después
estallaría
una primavera única.

EU QUERIA SER ANJO
Eu queria ser anjo
e amaciar os céus de Belém
com músicas de cima
acordar pastores dormentes
carregar toneladas de esperança
dourada. Para aspergir como chuva serôdia
o coração das gentes.
YO QUERÍA SER ÁNGEL
Yo quería ser ángel
y ablandar los cielos de Belén
con músicas de arriba
despertar pastores durmientes
cargar toneladas de dorada
esperanza. Para rociar como lluvia tardía
el corazón de las gentes.

A CASA DO OLEIRO
Na casa do oleiro vê-se
fruto do trabalho
o orgulho do mestre
em cada peça única
vidas reconstruídas à mão
sem pressas
na casa do oleiro há tempo
para gravar em todas as obras
a alma do artista
a casa do oleiro é o local
onde se faz a reinvenção
da História
e se relativiza a memória.
LA CASA DEL ALFARERO
En la casa del alfarero se aprecia
el fruto del trabajo
el orgullo del maestro
en cada pieza única
vidas reconstruidas a mano
sin prisas
en casa del alfarero hay tiempo
para grabar en cada obra
el alma del artista
la casa del alfarero es el lugar
donde se hace la reinvención
de la Historia
y se relativiza la memoria.

CAMINHOS DIREITOS
“Há caminhos que ao homem parecem direitos.” (da Bíblia)
Os caminhos nunca são direitos
abrem-se com os pés
a vida não conhece régua
nem esquadro
cada dia segue-se a uma noite
equilibram-se à vez num trapézio
sem rede
em exercício único
há caminhos que parecem direitos
segundo a ilusão do olhar.
CAMINOS DERECHOS
“Hay caminos que al hombre parecen derechos.” (de la Biblia)
Los caminos nunca son derechos
se abren con los pies
la vida no conoce regla
n iescuadra
cada día se sigue a una noche
se equilibran a la vez en un trapecio
sin red
en ejercicio único
hay caminos que parecen derechos
según la ilusión de la mirada.

COMO OS BAGOS DA ROMÃ
“Ó quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união.”
Salmo 133
Como os bagos da romã
damos sentido
ao vermelho do sangue
e pintamos um fruto de
unidade
onde cabem todos os rostos
inteiros.
COMO LOS GRANOS DE LA GRANADA
¡Oh cuán bueno y cuán delicioso es que los hermanos vivan en unión!
Salmo 133
Como los granos de la granada
damos sentido
al rojo de la sangre
y pintamos un fruto de
unidad
donde caben todos los rostros
completos.

ELAS VÃO BICHANANDO ORAÇÕES
“as mulheres rezavam batendo com o beiço”
(José Lins do Rego)
Elas vão bichanando orações
vãs repetições
tradição de lábios no adormecimento da mente
elas tocam castanholas com a boca
de ostras discretas
invocam um deus distante
em forma de ferida
que sangra
elas ficam a meio caminho
entre o pensamento e a fala
mastigam umas quase palavras
para enganar a fome
interior.

ELLAS VAN ENCADENANDO ORACIONES
“Las mujeres rezaban chocando los labios”
(José Lins do Rego)
Ellas van encadenando oraciones
vanas repeticiones
tradición de labios en el dormitar de la mente
ellas tocan castañuelas con la boca
de ostras discretas
invocan a un dios distante
en forma de herida
que sangra
ellas quedan en medio del camino
entre el pensaiento y el habla
mastican unas casi palabras
para engalar el hambre
interior.

José Brissos-Lino nasceu em Lisboa (1954), é
casado, tem dois filhos e um neto. Doutorado em Psicologia, Especialista em
Ética e em Ciência das Religiões, é director do Mestrado em Ciência das
Religiões na Universidade Lusófona, em Lisboa, coordenador do Instituto de
Cristianismo Contemporâneo e investigador.
Desenvolve há muitos anos intensa actividade em instituições culturais,
humanitárias e de solidariedade social, algumas das quais fundou. Foi
presidente da Liga dos Amigos do Hospital de São Bernardo, fundador e reitor da
Universidade Sénior de Setúbal. Fundou e presidiu à Direcção da BARA-Associação
Evangélica de Cultura e dirigiu a revista cultural da mesma. Integrou a
Direcção da Aliança Evangélica Portuguesa assim como a respectiva Assessoria de
Teologia e Ética. É pastor protestante. Conferencista e autor com obra
publicada nas áreas de ficção (romance), poesia, ensaio, e cronista na imprensa
regional e nacional, em 1974 assinou com Joanyr de Oliveira e J.T.Parreira o
“Manifesto por uma Nova Poesia Evangélica” em Portugal. Presidiu à Comissão
Organizadora do congresso internacional “Um construtor da Modernidade – Lutero
– Teses – 500 anos” (Lisboa, 2017). Integra o ConsejoAsesor Iberoamericano da
Red Iberoamericana de Poetas y Críticos Literarios Cristianos TIBERIADES.
