Cláudio Aguiar

Entrevista com Cláudio Aguiar sobre o livro ‘Prontuário de Infinito’, de Alencart (em português)

Tiberíades agradece al periodista Mauricio Cifuentes por permitirnos publicar, en primicia tratándose del idioma portugués, su entrevista al reconocido escritor, traductor, dramaturgo y poeta brasileño Cláudio Aguiar. La misma gira en torno al libro ‘Prontuario de infinito’, del poeta peruano-salmantino, además de otros asuntos relativos a la traducción en general y a la propia experiencia poética del autor cearense. La entrevista en español se publicó en el periódico La Razón. Aquí el enlace:

https://www.larazon.es/castilla-y-leon/20210403/o6yunqcfmnds5iy247bncz253u.html

Entrevista com Cláudio Aguiar sobre o livro de Alencart

Mauricio Cifuentes

É uma satisfação entrevistar um destacado escritor brasileiro que mantém laços indeléveis com a cidade de Salamanca, onde,na sua universidade de oitocentos anos, doutorou-se em meados dos anos oitenta. Cláudio Aguiar (Ceará, 1944), autor de mais de vinte obras que vão desde a narrativa à poesia e ainda passando por ensaios e teatro, conquistou importantes prêmios literários nacionais em seu país, a exemplo do José Olympio de Romance (1981), do Prêmio de Literatura do Ministério da Educação e Cultura / Instituto Nacional do Livro (MEC-INL, 1982) e do Prêmio Osman Lins de Romance (1989), entre outros.

Sabemos de sua amizade com o renomado poeta peruano-salamantino Alfredo Pérez Alencart , a qual vem desde meados dos anos oitenta, quando vocês se conheceram em Salamanca. Isso influenciou sua decisão de traduzir duas obras do professor salmantino?

Cláudio Aguiar – Não.  De modo algum. A amizade sempre constitui um forte elemento para aproximar as pessoas, sobretudo no caso de escritores ou artistas. No entanto, nem sempre a amizade deverá significar um ponto de partida para manifestações ou apreciações de natureza estética. O que deve presidir atos dessa natureza, no caso, a tradução voluntária, sem  outros interesses ou vantagens materiais, sem dúvida, é o reconhecimento do valor estético da obra de autor vivo ou morto. Assim, o que me levou a traduzir até agora duas obras poéticas de Alfredo Perez Alencart foi a carga estética imprimida nas obras mencionadas, principalmente voltadas para indagações e respostas dadas nos temas abordados: a fé. Alencart tem se posicionado na abordagem de aspectos profundos e difíceis da condição humana, chegando a indagar sobre o território do mistério, quer no âmbito do próprio signo guardado pela exemplar força de Cristo que nos ilumina, quer na dimensão do infinito como um desvão que nos impulsiona a meditar sobre sua vastidão do que propriamente pela possibilidade de compreendê-la. Esse complexo problema religioso me chamou a atenção como leitor. Então, resolvi traduzir ao português sua poesia para que mais brasileiros possam também meditar sobre essas reflexões tão sensíveis e atuais.

Prontuario de infinito sobre el Puente Romano de Salamanca

Por falar em Prontuário de Infinito, livro recentemente traduzido por você para o português, como avalia seu conteúdo e qual o grau de dificuldade encontrado no momento de traduzi-lo para a sua língua?

CA – Em princípio devo dizer que as dificuldades são enormes. A tradução de poesia, mais do que de prosa, não se reduz a mera transcrição literal de termos em obediência a regras gramaticais adequadas. Também não se trata de esforço que abandone o sopro criador original do poeta e termine, em alguns casos, por descolorir ou empalidecer os recursos antes empregados pelo autor, sobretudo no que diz respeito às imagens  e signos recorrentes na fatura primária, que só o poeta tem a primazia de exercitá-la e fixá-la na têmpera de seu verso, utilizando sua expressividade inata e peculiar. Só ele pode sentir esse rebento inaugural e tecer um mundo que é só seu. O tradutor, mediante o domínio da língua de chegada deve aproximar-se a esse arcabouço, porém, estou certo de que jamais sua versão, por mais perfeita e irretocável que possa parecer terá o condão de atingir os logros inaugurais do poeta. O cuidado maior, na verdade, reside, exatamente na parte em que você indaga sobre a valorização do conteúdo da obra. Essa questão, sem dúvida, existe. Porém, no caso do tradutor a sua interferência não vai nunca além das assimilações inerentes, por exemplo, a qualquer leitor atento que tenha a obra em suas mãos. No meu caso pessoal de tradutor, como já ocorreu em relação a outras obras por mim traduzidas, sei perfeitamente os limites e as permissões lógicas que poderão ser tentadas. Já vivi isso, por exemplo, nos casos de minhas traduções de Shakespeare, Maeterlinck e Unamuno. Afinal, como disse com acerto o crítico Dámaso Alonso,o poema é um nexo entre dois mistérios: o do poeta e o do leitor”. Então, nesse caso da valorização da obra Prontuário de Infinito, de fato, tudo que eu disser sobre essa obra será opinião de leitor atento e não de tradutor propriamente dito. Na resposta anterior referi-me à dimensão do infinito como se fora um profundo desvão que nos convida a meditar sobre  a sensação de enormidade que nos parece afogar ou deixar sem fôlego, tamanho o esforço intelectual empregado para tentar decifrá-lo. Esse questionamento religioso sempre me chamou a atenção como cristão e a obra de Alfredo Perez Alencart sugere as senhas para que o leitor se debruce sobre esse mistério e viva a possibilidade de indagar. Aliás, a filósofa espanhola María Zambrano refletiu de maneira profunda e também indagou sobre as fronteiras dessa questão em Filosofía y Poesía, inclusive colocando-a como um elemento intrínseco à própria condição do poeta que deseja descer (ou subir?) pelos mais íngremes degraus em busca do espectro do Divino. A filósofa espanhola ampliou suas reflexões de maneira extraordinária também no ensaio El Hombre y lo Divino. Foi Zambrano que apagou de minha retina aquela imagem agostiniana de que “a poesia é o vinho do diabo”. Alfredo Perez Alencart vem mostrar com suas indagações e afirmações percucientes e elevadas que a Poesia ainda é um dos mais eficazes instrumentos para se decifrar labirintos e caminhos aparentemente sem ida nem retorno.

Cláudio Aguiar, Alencart y José Alfredo (Olinda, 1996. Foto de Jacqueline Alencar)

A Editora Galo Branco, do Rio de Janeiro, publicou em 2011 sua tradução do livro de poesia Cristo da Alma, de Pérez Alencart. Quais as semelhanças e as diferenças encontradas por você entre os dois livros?

CA – Em verdade existem semelhanças e diferenças fundamentais. A própria dimensão da alma e do infinito, por si só, já seria suficiente para cifrar as linhas diferenciais entre os termos constitutivos da matéria poética elegida por Alencart nos dois livros mencionados. A alma, entenida com sua carga individual como algo inerente à condição individual do ser humano, somente atinge o sentido metafórico com significado totalizante quando falamos, por exemplo, da “alma do mundo”.  Aqui, no entanto, não é o caso. Por outro lado, bem diferente é a noção que se conhece do que seja infinito. Não basta dizer que significa algo que não tem limites ou fim. No foco do poeta Perez Alencart o infinito está associado a Deus, ou, seja, à dimensão divina daquilo que se insere na própria ilimitabilidade das coisas, por serem, enfim, incontáveis.  A semelhança entre Cristo del Alma e Prontuário de Infinito, a meu ver, de saída, se nota no foco religioso que aproveita a temática.

Considera que a poesia com olhar voltado para o divino ou para o transcendente está considerada pior do que outras de temática mais terrena ou, pelo contrário, considera que o espiritual está enraizado no ser humano e necessita dessas fontes?

CA – Creio que sim. Principalmente nas últimas décadas quando vemos, por um lado, prosperar com muita ênfase o apego excessivo a certos aspectos materiais da vida e, por outro, quase um desdém pelos estigmas e mistérios que norteiam a dimensão do Divino. Não me refiro, aquí, exclusivamente a posturas políticas ou ideológicas, mas a fatores negativos e lamentáveis que afetam a fé ou a crença das pessoas nas mais diferentes áreas do globo terrestre. É comum ver-se persistir a exploração da fé com objetivos escusos e injustificáveis por grupos que se armam de uma retórica aparentemente religiosa e salvacionista, mas, de fato, estão mirando outos alvos. As dimensões terrenal e espiritual, a meu ver, são manifestações necessárias a todos os seres humanos. Não vejo motivo para se defender ênfase em um ou em noutro aspecto. Nem tampouco insistir em desqualificações deste ou daquele comportamento. As categorias da vida terrena, do terra a terra, do dia a dia, enquanto experimentadas pelos seres vivos, a rigor, devem fluir em todas as dimensões com liberdade de ação e de respeito entre ellas, inclusive aos limites de passos que levem ao oposto do caminho pretendido ou os elimine. O espiritual, essa sede ou necessidade imperiosa de buscar explicacção para o mistério, é algo inato do ser humano. As crenças geram comportamentos e eleições, às vezes, exigindo rendições absolutas, porém, não acho que se deva condicionar essas tendências religiosas a cadinhos ou a caminhos exclusivos. Todos devem ter o direito de escolher o que melhor lhe aprouver.

Celia Salsa, Jacqueline Alencar y Cláudio Aguiar, en la playas de Janga (Brasil, 1996)

É interessante ver como um escritor de prestígio como você, premiado por vários de seus romances, peças teatrais e contos, se preocupa em traduzir a poesia de Pérez Alencart. Você escreveu e publicou poesia? Pergunto-lhe isso porque muitos contadores de histórias de prestígio costumam comentar com frequência que gostariam de ser poetas, tal como o próprio Miguel de Cervantes queria ser reconhecido como tal.

CA – Já tenho me defrontado com algumas considerações de pessoas que acham necessária a eleição de um único gênero para que o escritor ou o artista se expresse. Para elas o romancista não pode ser dramaturgo, ensaista, poeta. E vice-versa. Antes de pensar que essa exclusividade poderia alinhar-se a uma efetiva elevação da fatura estética e ser capaz de iluminar a obra e dá-la reconhecimento indiscutível, sou de opinião que é, igualmente, comum encontrar escritores ou artistas dotados de capacidades múltiplas. Sei que, assim como existem os múltiplos, também existem os singulares, ou seja, aquelas pessoas que se revelam incapazes de expressar a síntese do verso, a leveza do traço e da cor, a cena essencial posta no palco da vida, a nota musical no pentagrama,  etc. Desde jovem descobri existir em mim o dom de usar a palavra escrita para contar histórias, refletir e tentar cultuar a poesia no verso ou no reduzido palco da vida cênica. Então, para contar histórias elegi as narrativas e o teatro;  para refletir escolhi o ensaio; e, levado pela força da da experiência sensível, a poesia. Daí, costumo dar razão àqueles que afirmam ser o dramaturgo um poeta. Como autor teatral tenho várias peças formalmente expressas em verso, inclusive a mais recente, A Última Noite de Kafka, um monólogo com cerca de oitocentos versos, nos quais narro os úiltimos momentos da tortuosa vida do autor de O Processo. Além de teatro poético, publiquei recentemente o livro de poesia Baile de Luz e, em breve, aparecerá Oráculos para um mundo invisível. A poesia, ademais, parece ser algo que flui quase de maneira incontrolável, como se fora uma força inata que se manifesta não de maneira cerebral, mas a partir do coração que pulsa. Acho que foi por isso que o poeta francês André Chernier, a propósitso dessa incontrolável energia, disse que a arte faz os versos, porém, só o coração é poeta”.

Salamanca faz parte da sua história pessoal. Que memórias permanentes este alto povoado de torres lhe sugere, como costumava dizer o seu admirado Unamuno?

CA – Sou uma pessoa que tem experimentado vivências significativas em várias cidades. Desde a vila cearense Várzea Formosa encravada no topo da Serra da Ibiapaba (Ceará), onde vim ao mundo, (que, inexplicavelmente, mudaram o nome para Poranga, que quer dizer em linguagem indígena “pássaro formoso”), passando por Fortaleza, capital do Ceará, Recife, Olinda, cidade colonial empedrada e considerada Patrimônio da Cultural da Humanidade, e, ainda, a emblemática cidade do Rio de Janeiro. A esse elenco não poderia faltar Salamanca, onde cheguei nos primeiros anos de 1980, para, juntamente com minha mulher, Célia Salsa, e a filha Madalena, cumprirmos as obrigações acadêmicas perante a vetusta Universidade de Salamanca. Na verdade, foi uma espécie de alumbramento. A monumentalidade da cidade, a sua história milenar, os escritores, os poetas, os artistas, a cozinha especial, o convívio acadêmico, o ar de juventude a pulsar em suas ruas e praças, foram ocorrências marcantes. Essa experiência ultrapassou todas as normais expectativas e nos atingiu profundamente, sobretudo nas relações de amizades com pessoas da Universidade e da urbe. Vínculos profundos se armaram e persistem ao longo dos anos, como, por exemplo, a forte e sincera amizade que nos une a Alfredo Perez Alencart e sua família, que, aliás, vi crescer e formar-se. Salamanca passou a ser, desde então, uma daquelas moradas em que, como eu disse em um dos poemas publicados em Baile de Luz, jamais poderá ser esquecida de nosso pensamento:  “Eis a minha sina: / de lá não saí / no dia que parti, / foi lá que fiquei”.

Por fim, diga-nos: quais são os projetos que você está trabalhando agora?

CA – Apesar da grave crise sanitária que ainda grassa no mundo, no momento estou a escrever um novo romance e a trabalhar na construção de um espaço cultural na cidade colonial de Olinda. Vivermos entre Olinda e o Rio de Janeiro. A nossa casa olindense, um amplo solar colonial com mais de quatro séculos, situado no Sítio Histórico de Olinda  no alto da colina de São Bento, presta-se bem para se instalar uma instituição destinada a compartilhar com jovens estudantes e outras pessoas interessadas  atividades  culturais, bem como práticas inerentes à leitura e à criação literária e dramática. Queremos fazer com que, parte de nosso esforço de escritor estimule jovens da comunidade olindense a viver a experiência de entrar em contato com a literatura e a cultura em geral.

Claudio Aguiar y Celia Salsa, su esposa



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