Tiberíades agradece a Pedro Miguel Salvado, historiador y gestor cultural lusitano, por permitirnos la difusión del contenido de la plaquette ‘Creente’ (Sirgo, Fundão, 2022), de Alfredo Pérez Alencart, publicada en edición bilingüe, con traducción al portugués del notable poeta António Salvado. El cuaderno tiene una presentación firmada por Pedro Miguel Salvado, dos ilustraciones interiores de Miguel Elías, mientras que la coordinación estuvo a cargo de André Moita Vega. Al final se incluye el comentario de António Alves Fernandes, leído en la presentación del cuaderno en la Aldeia de Joanes, durante la reciente Pascua.
Crente
A composição do poeta e ensaísta peruano-espanhol Alfredo Peréz Alencart “Um crente caminha pelo Fundão”, acompanhada nesta pequena edição de dois desenhos do pintor Miguel Elias, fixa uma cartografia de fé ancorada a um topónimo compondo uma dupla geografia de interioridades: a do lugar da paisagem urbana da Beira e um mapa do itinerário do seu sentir íntimo.
Matéria e espírito entrelaçam-se numa contínua inquietação afirmando os nós e os laços da religação do Poeta aos horizontes porosos do sagrado. Um “Religar” que está na origem de religio aqui também entendido como relegere “reler”. O texto, denso, averba a experiência pessoal num caminho que percorre uma intensidade interrogativa marcando tempos e sentires do lugar “la ciudad toda es plegaria a la sensillez, a roncos inviernos, al leve movimento de siglos aderidos a sentir irreversible” numa comunhão que confirma Joshua Heschel quando escreveu que “Nenhuma religião é uma ilha. Estamos todos ligados uns com os outros.” O Fundão apesenta-se como um todo de fé, um território antigo de devoção que o peregrino Alfredo percorre cumprindo a descodificação da “ley” de Alfonso X o rei sábio nas múltiplas traduções do que é vencer caminho “Qué quire decir romero et pelegrino, et quantas maneras son dellos”.
Foi o poeta e traductor Gianni Darconza quem, como outros, afirmou que a poesia de Alencart é de raiz religiosa e dilui a dominância dos materialismos ancestrais. O poema fundanense de Alencart é uma conversa de solidão que ilumina um caminho que reaviva o que, um dia, o grande
poeta Antonio Machado assinalou “aquele que fala sempre sozinho um dia haverá de falar com Deus”. Conversar no caminho é, em tempo de Páscoa, reencontrar sempre a Esperança.
Pedro Miguel Salvado

UN CREYENTE CAMINA POR FUNDÃO
Camino por Fundão, con las pulsiones de la fe
manifestándose en el diapasón del mediodía,
izando desde la memoria aquellos salmos
que me sosiegan dentro, el cantar
del corazón tranquilo que vibra con los Evangelios
porque siente que son luz y es Jesucristo
quien porta la candela.
¡Dialecto preciso que entiende el susurro de Dios!
¡Condición para renacimientos e inventarios!
¡Oh equilibrio surgido desde desembalses
de otra sangre pura, desde anhelos
esculpidos en mi pecho!
El corazón bombea motivos de júbilo: las lindes
interiores se encuentran atravesadas de suspiros;
el recinto del alma acoge sincopados relampagazos
pues las lecciones del Nazareno recomienzan
una y otra vez para que así aprendamos
a anudar amor en la frente,
para que celebremos el calor de la vida
y nos llenemos con la señal del Cuerpo
que sobrevive por generaciones
en la luz, en la mente y en el vaticinio.
Camino por Fundão levantando la cabeza,
pidiendo vino y pan de aquel perseguido,
sintiendo su historia diferente,
mirando su muerte,
conociendo el sol profundo
de un mensaje libertario que doblemente saludo,
duela
a quien le duela.
Así se presenta la fe, subiendo las paredes del alma,
sentándose en una célula de la sangre
del Viernes Santo, en una gota del sufriente sudor
que baña el Rostro de quien colma de bendiciones
nuestro destierro y los labios de agonía
circunvalando las entrañas, apostándose
en la mitad del corazón, cediendo voces premonitorias
apenas salvadas de la crucifixión.
Camino por Fundão: la ciudad toda es plegaria
a la sencillez, a roncos inviernos, al leve movimiento
de siglos adheridos a un sentir irreversible
y a tímidas caricias y a ruegos que se vuelven
música sagrada para desnudar nuestro espíritu
hasta que tiemble de creyente gozo.
Voy por sus calles y, como por ellas percibo
la presencia del Hijo del Padre, alcanzo a preguntar:
¿Hasta cuándo alcanzan tus recuerdos,
pedazo de suelo glorificado por un Dios amigo
que hacia ti tendió sus luminosos dedos?
¿Será la oración que hoy entono
una manera cristiana de agradecer
los dones recibidos?
¿Dónde, dinos dónde, amanecen los misterios
o la luz divina que amplifica
alabanzas y agonías de los hombres?
He sido elegido para seguir los rastros del amor,
para rebanar silencios de un mensaje que no envejece,
para seguir nombrando el asombro y el recuerdo
y la semilla sembrada en el corazón despierto
de los hombres.
Todo existe en la herida de quien renace
para que empecemos a ver lo que se esconde
detrás del misterio o de los juegos de luz y realidad
mudándose al interior de quien testimonia su fe
como una noticia feliz
que llena de calor al mundo.
Camino por Fundão y pongo en mi boca
una declaración definitiva:
Creyente de la oración alumbradora, hundo
mi cuerpo en su Cuerpo y sigo mi camino,
amando siempre.
(Trad. António Salvado)

UM CRENTE CAMINHA PELO FUNDÃO
Caminho pelo Fundão, com o latejar da fé
que se manifesta no diapasão do meio-dia,
erguendo, pela memória, aqueles salmos
que me sossegam, o cantar
do coração tranquilo que vibra com os Evangelhos
porque sabe que são luz e que é Jesus Cristo
quem leva a candeia.
Exacto dialecto que escuta o murmúrio de Deus!
Condição para renascimentos e inventários!
Oh equilíbrio surgido de escoamentos
de outro sangue puro, de anseios
esculpidos no meu peito!
O coração derrama motivos de júbilo: os limites
interiores encontram-se trespassados por suspiros;
o âmago da alma acolhe sincopados relâmpagos
pois as lições do Nazareno recomeçam
uma e outra vez para que assim se aprenda
a fazer crescer o amor,
para que celebremos o calor da vida
e nos enchamos com o sinal do Corpo
que sobrevive por gerações
na luz, na mente e no vaticínio.
Caminho pelo Fundão erguendo a cabeça,
pedindo pão e vinho àquele perseguido,
sentindo a sua história diferente,
olhando a sua morte,
conhecendo o sol profundo
duma mensagem de libertação que duas vezes saúdo,
e doa
a quem doer.
Assim se manifesta a fé, trepando pelas paredes da alma,
sentando-nos numa célula do sangue
de Sexta-Feira Santa, numa gota de sofredor suor
que banha o Rosto de quem enche bênções
o nosso desterro e os lábios de agonia
que cercam as entranhas, que se colocam
em metade do coração, que cedem vozes premonitórias
salvas em pouco da crucificação.
Caminho pelo Fundão: toda a cidade é uma oração
à humildade, a invernos bravios, ao leve movimento
de séculos ligados a um sentir irreversível
e a tímidas carícias e a pedidos que se transformam
em música sagrada para que o nosso espírito fique limpo
até tremer com o prazer da crença.
Vou pelas suas ruas e, como por elas vislumbro
a presença do Filho do Pai, vejo-me a perguntar:
Até que tempo chegam as tuas recordações,
pedaço de chão glorificado por um Deus amigo
que até ti estendeu os luminosos dedos?
Será a oração que hoje rezo
uma maneira cristã de agradecer
Margens de um Mundo ou Mosaico Lusitano
os dons recebidos?
Onde, diz-nos, onde amanhecem os mistérios
ou a luz divina que dilata
loas e agonias dos homens?
Fui escolhido para seguir o caminho do amor,
para talhar silêncios duma mensagem que não envelhece,
para prosseguir nomeando o assombro e a lembrança
e a semente lançada no coração desperto
dos homens.
E tudo existe na ferida de quem renasce
para que se comece a ver o que se esconde
por detrás do mistério ou de jogos de luz e realidade
com a mudança até ao interior de quem afirma a sua fé
como uma feliz notícia
que de calor enche o mundo.
Caminho pelo Fundão e ponho em minha boca
uma definitiva declaração:
Crendo na oração esplendorosa, mergulho
o meu corpo no seu Corpo e caminho
amando sempre.

UM CRENTE CAMINHA NO FUNDÃO
António Alves Fernandes
Este é o título de um conjunto de poemas de uma pequena publicação, “CRENTE”, uma composição do poeta e ensaísta peruano-espanhol, Alfredo Pérez Alencart, um caderno lançado na aldeia da Fatela, integrado, na Quadragésima – Tradições da Quaresma – Itinerários do Sentir – Visitação ao Património Religioso.
O Poema é uma grande prece a Cristo na sua Paixão e Redenção, envolvendo todas as circunstâncias existenciais.
Há mais de sete décadas que este peregrino faz percursos muito vividos de prática cristã, principalmente quaresmais, iniciados na sua arraiana aldeia natal, Bismula, e continuando no Sabugal, Gouveia, Setúbal, Guiné-Bissau, Lisboa, Mem Martins, Castelo Branco e, nestes últimos trinta anos, no Fundão. Eram e são momentos únicos de muita fé, de emoções espirituais, com a finalidade de alcançar a tão desejada Cidade Celeste Jerusalém.
Os Evangelhos são a base da nossa fé cristã, os compêndios de leitura e ensinamentos obrigatórios. São os nossos alicerces, apoiados na prática da oração e da caridade.
A mensagem de Cristo é fundamental: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.”
Quando percorro neste tempo quaresmal as ruas do Fundão e das nossas comunidades, vêm-me à memória os sons dos salmos, das rezas, das orações, cantadas ou cantaroladas por gentes com vozes doridas, chorosas, da Paixão de Cristo. “Caminho pelo Fundão: toda a cidade é uma oração à humildade, a invernos bravios ao leve momento de séculos ligados a um sentir irreversível.”
Em muitos escritos bíblicos são adaptadas linguagens populares, de riqueza espiritual muito forte e que tocam qualquer coração, até os menos sensíveis.
Nessa língua de corações a chorar, cito o poema de Alfredo Pérez Alencart, “exacto dialecto, que escuta a murmúrio de Deus, duma mensagem de libertação…”
Caminhante da Quaresma, em silêncio medito nas catorze estações da Via-Sacra, o Caminho que Jesus Cristo percorreu até chegar ao Monte do Calvário. As cenas da Semana Santa são igualmente relembradas, comemoradas, meditadas por gentes das nossas comunidades.
Volto ao poema e “vou pelas suas ruas e como por elas vislumbro a presença do Filho de Deus.” Medito num Cristo carregado com a Cruz, que segura com as suas sagradas mãos, de compaixão, de conforto, de compaixão, de coragem, de solidariedade, de misericórdia, de fortaleza, de esperança, de paz e de salvação.
O Povo de Deus, que em uníssono quer a felicidade redentora, reza, declama em voz bem alta, Nós vos adoramos e bendizemos, oh Jesus, porque pela Vossa Santa Cruz redimiste o mundo.
Reflectindo no poema, depois de tanto suor, sangue, dor, morte, chega-nos “uma feliz notícia, que de calor enche o mundo…duma mensagem de libertação que duas vezes saúdo e doa a quem doer.”
Caminho à procura de uma luz, nem que seja de uma candeia, que já iluminou a minha infância, que vá continuando a iluminar a minha vida.
Nestes tempos de hoje, multiplicam-se as sextas-feiras santas de dor, de sangue, de sofrimento e de morte, e vemos permanentemente tantos Cristos Crucificados, crianças, mulheres, homens indefesos, mortos, estropiados, mutilados, destruição de casas, prédios, escolas, teatros, hospitais, creches, numa invasão à Ucrânia.
Nesta Quaresma, cito o poeta, “pois as lições do Nazareno recomeçam uma e outra vez para que assim se aprenda a fazer crescer o amor”, apelando a Cristo Ressuscitado a tão desejada Paz.
Aldeia de Joanes
Pascoa/2022
Imagen de cabecera: A. P. Alencart, Pedro Miguel Salvado y Paulo Barnardino, en Castelo Branco (foto de José Alfredo Pérez Alencar)
